sexta-feira, 5 de junho de 2009

A Sabedoria da Natureza - parte II


Continuando sobre a sabedoria da Natureza....

As lições do bambu (por Roberto Otsu)

O bambu enraíza-se bem fundo antes de crescer fora da terra: o broto de bambu permanece inalterado no solo por um período de cinco anos, todo o desenvolvimento do bambu acontece debaixo do solo e ninguém vê, durante esse período as raízes se aprofundam e se espalham pela terra, palmo a palmo, em silêncio, enquanto isso o broto permanece inalterado, após o período de cinco anos o broto inicia um crescimento vertiginoso, e, em pouquíssimo tempo atinge 25 metros de altura. Essa é a lição da paciência e determinação. Crescer em pouco tempo não significa estabilidade. O imediatismo pode ser sinal de falta de planejamento. Ao contrário do que ensina o mundo ocidental, segundo os chineses, o foco deve ser no processo e não no resultado. Enquanto o broto está no subterrâneo, longe das vistas, ele permanece calmo, concentrado e espera o momento certo para mostrar a que veio, ele sabe que enquanto as raízes não estiverem firmes e bem espalhadas não adianta sair para a superfície pois cairia na primeira ventania. Todo tempo de espera é tempo de crescimento e aprendizagem, ou, no mínimo é uma oportunidade de exercitar a paciência, a peserverança e a determinação. Se não temos confiança na vida e nos processos naturais somos tomados pela angústia e pelo medo. Começamos a agigantar as dificuldades, os perigos, os fracassos e as frustrações, a isso, damos o nome de pré-ocupações, e isso não serve para nada, apenas para roubar a energia e a paz interior. Os sábios sabem que a confiança na vida e na natureza preservam o equilíbrio interior.

O bambu cresce reto e satisfeito com seu espaço: crescer reto e respeitar o espaço alheio; é não invadir, é não atrapalhar, nem solicitar o outro por qualquer coisa, o bambu chinês é humilde, precisa de pouco espaço, não toma o lugar de ninguém. Para os taoístas o lugar do outro é sagrado porque considera sagrado,seu próprio espaço. Crescer reto quer dizer, não competir com os outros, não se deter por coisas menores. O bambu não fica se comparando com outras plantas para saber quem cresce mais rápido, quem chama mais atenção, quem fica mais alto, quem faz mais sombra, etc. O importante para ele, é fazer o que tem que ser feito, de forma objetiva, com determinação e confiança.

O bambu é uma planta muito simples, é firme sem ser rígido, elegante sem ser chamativo, altivo sem ser arrogante. O essencial é simples, " olhai os lírios do campo que não fiam nem tecem, mas nem Salomão, em toda sua pompa, jamais se vestiu como um deles".

O bambu tem divisões que garantem sua resistência: se o talo do bambu não tivesse divisões, as fibras seriam compridas e poderiam se dobrar com qualquer vento, os nós do bambu tem a função de dividir e limitar o comprimento das fibras do caule. O que dá resistência ao bambu, são as divisões, os limites. A natureza tem limites fixos; para o dia e a noite, verão e inverno, e são esses limites que dão sentido ao ano, o dia tem 24 horas mas é dividido em período de claridade e escuridão, se houvesse apenas escuridão, os animais não conseguiriam absorver a energia solar necessária à vida, as plantas não produziriam oxigênio, se houvesse apenas claridade não conseguiríamos repousar, a temperatura do planeta se elevaria demasiadamente, as células dos olhos não suportariam o excesso de estímulos luminosos...São os limites que garantem a resistência e a vida de tudo. A falta de limite, em termos sociais, pode gerar atitudes desagradáveis como dar palpites onde não se é chamado até delitos mais graves como roubar ou atentar contra outros. O bambu já tem as divisões desde os brotos, assim também é necessário ensinar os limites desde a infância. Limitação, segundo os taoístas, significa moderação, evitar os extremos. Se o bambu tivesse limites a cada centímetro seria rígido demais, se não os tivesse seria muito flexível e se quebraria fácil.

O bambu curva-se no vendaval para não quebrar: uma árvore muito rígida quebra-se com um vento muito forte, o bambu não, ele se curva e depois que o vendaval passa, volta intacto a posição original. Flexibilidade é a capacidade de se adaptar às circunstâncias da vida, significa não ter posturas rígidas, nem físicas, nem psíquicas. Uma pessoa rígida não é feliz, não se permite os prazeres normais da vida e da própria pessoa. Rigidez é sinal de morte. Flexibilidade é sinal de vida. Um bebê é flexível e cheio de vida, um idoso é mais duro e sem a mesma vivacidade da criança. Flexibilidade é a capacidade de não resistir as coisas naturais que nos acontecem, por exemplo, o bambu não resiste à força do vento, é a não resistência que evita os danos.

A maior qualidade do bambu é o vazio interior: para a maior parte das pessoas o vazio tem um sentido negativo. Significa nulidade, "pessoa vazia" é alguém fútil, destituído de inteligência e profundidade. Para os orientais é o oposto, o vazio é a origem de boas qualidades. Se a nossa mente estiver entulhada de preocupações, não podemos pensar direito; se a agenda estiver cheia de compromissos, não podemos programar mais nada. Se a mente estiver livre, podemos resolver os problemas com consciência e tranquilidade.

Namastê!

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