
Há alguns dias participei de uma aula de taoísmo ministrada pelo Escritor Roberto Otsu, aliás quero aproveitar para demonstrar minha admiração e respeito por esse mestre, comecei a admirá-lo quando li seu livro A Sabedoria da Natureza, que muito me ensinou e quando eu tive a oportunidade de conhecê-lo e participar dessa aula maravilhosa, minha admiração se solidificou. Nessa aula ele falava sobre algumas das milenares sabedorias chinesas tais como o taoísmo, I Ching quando então eu perguntei:
- Roberto, o que aconteceu com a China, um país que é o berço de tanto conhecimento e sabedoria, como pode hoje ser uma ameaça mundial com a sua infinita produção industrial, exploração de mão-de-obra escrava e devastação dos recursos naturais, vêm produzindo uma quantidade absurda de lixo, porque os produtos chineses, em sua maioria, são praticamente descartáveis. Sabemos que essa estratégia de enriquecimento do governo chinês, está causando danos irreversíveis ao planeta... Não posso entender. Onde se escondeu a sabedoria chinesa?
Ele estava com um objeto na mão, em formato de pêndulo, simplesmente levantou a ponta do objeto até uma das extremidades e me respondeu: - o que aconteceu com a China foi isso... E soltou a ponta do objeto, que saiu de uma extremidade velozmente para outra... Compreendi, sem mais palavras o que ele me mostrou.
De fato, sabemos que a sabedoria da vida consiste no equilíbrio dinâmico, quando insistimos em permanecer nos extremos fatalmente sairemos de um extremo a outro velozmente de forma até insana. Durante muitas centenas de anos nos ensinaram que devemos ser bonzinhos, devemos nos sacrificar pelos outros, devemos ser educados e nos “comportar bonitinhos” na convivência social, temos que ajudar o próximo, etc., etc., etc. Evidentemente era necessário estabelecer regras de convivência, afinal tínhamos que partir de algum ponto, seja do decálogo, seja do estudo da moral, enfim fizemos esse caminho do Jesus pregado na cruz (sacrifício) onde, na lenda religiosa consta que Ele morreu na cruz para nos livrar do pecado. Daí alguns perguntam: que pecado? Como pode uma criancinha que acabou de vir ao mundo ser pecadora? Daí a Igreja responde: do pecado original meu filho, aquele em que a dona Eva cedeu à tentação da serpente e comeu do fruto proibido. Daí compreendemos que esse pecado original era apenas o sexo, como todos nós nascemos de um ato sexual, então somos todos pecadores, por isso Jesus nasceu de uma virgem fecundada pelo divino Espírito Santo... Há bom, mesmo que do ponto de vista biológico ninguém possa explicar tal fato, não podemos discutir os desígnios de Deus, assim falaram os poderosos da Igreja, portanto não especulem mais nada.
Mas, voltando ao equilíbrio dinâmico e ao fato de termos aprendido que devemos nos sacrificar em prol do outro, de repente surge uma nova idéia vinda diretamente do decálogo: Amar ao próximo como a si mesmo, sempre prestamos atenção nas três primeiras palavras e agora descobrimos as três últimas, daí parece que fizemos que nem o pêndulo do Roberto Otsu... ÔÔÔPA! Descobrimos a importância do amor próprio, bingo!!! Como amar o outro se eu não me amo, é preciso descobrir o amor em mim e expandir esse amor a partir de mim para o mundo, passamos um longo período julgando o mundo e os outros e na expectativa de um mundo melhor sendo que para isso, os políticos precisavam ser melhores, nossos pais precisavam ser melhores, nossos vizinhos, parentes, amigos, etc. precisavam mudar, ou seja, o mundo precisava mudar.... Agora caímos na real, não é o externo que precisa mudar, a mudança precisa ocorrer em mim, eu sou um fragmento do mundo e toda escolha minha por mais insignificante que seja, afeta o mundo, logo o amor precisa nascer em cada fragmento, precisa nascer em mim, eu preciso me amar e me aceitar como sou, pois a partir daí, passarei a aceitar e amar os outros sem a necessidade de mudá-los, os julgamentos cessarão no exato momento em que compreendo e aceito que cada um tem seu caminho. Assim, não acharei mais ninguém estúpido, ou ridículo, ou belo ou feio, ou desejarei a pena de morte daquele assassino, ladrão, traficante, etc. É evidente que uma parte razoável da sociedade, talvez uns 95% ainda não aprendemos sobre respeito, limites muito menos sobre amor , um indivíduo que comete a barbaridade de um assassinato sabe tanto sobre isso, quanto um político corrupto, ou um empresário que pratica as maiores falcatruas para ficar mais rico, ou mesmo um líder religioso qualquer que se coloca acima de todos. Essas pessoas que saqueiam, livres de escrúpulos e respeito, a mãe Terra, as Nações e aos filhos da Terra porque acham que merecem uma fatia maior das riquezas, não se diferenciam em nada dos assassinos, estupradores, traficantes, etc. e é natural que a lei terrena aplique suas punições para que haja condições mínimas de convivência, não penso que os bandidos tenham que continuar impunes, mas penso que ao invés de julgarmos esses seres, precisamos ter um outro olhar sobre tudo isso, pois quanto mais julgamos e nos indignamos, mais as trevas se apoderam do mundo... E de cada um de nós. Ainda que não seja um olhar amoroso que pelo menos seja algo parecido com compaixão, pois a compaixão pelo outro não é senão a compaixão por nós mesmos, o outro é apenas o nosso espelho e quem nos garante se tivéssemos trilhado o mesmo caminho do outro, se não cometeríamos as mesmas barbaridades ou até piores, cada um tem sua história, seus valores, seu caminho.
Uma coisa que tenho percebido nessa descoberta do “amor próprio” é que muitos de nós estamos confundindo amor com egoísmo e é mesmo difícil separar, saí de uma visão de obrigação de sacrifício pelo outro para uma outra visão onde finalmente podemos nos colocar em primeiro lugar na fila, a questão é que se não entendemos a importância do respeito ao outro, transformamos esse “amor próprio” em egoísmo e acabamos sendo rudes e mal educados só para mostrar o quanto nos “amamos”. Acredito que amar-se a si mesmo é buscar a auto-aceitação, o autoconhecimento, somente quando aceitamos totalmente nossa luz e nossa sombra, nosso brilho e talentos e nossas imperfeições, poderemos ter um olhar amoroso sobre a inteireza do outro.
Namastê
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